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Carta Pastoral

04 maio, 2026 às 17h05 - Atualizado: 4 de maio de 2026

CARTA PASTORAL

DISCÍPULOS E DISCÍPULAS NOS CAMINHOS DA MISSÃO CUIDAM DE TODA A CRIAÇÃO

 

“A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus”

 (Romanos 8.19).

 

Introdução: A criação espera

Essas palavras do apóstolo Paulo ecoam com urgência renovada em nosso tempo. A criação não está apenas esperando passivamente – está gemendo, suportando angústias, ansiando pela manifestação plena daqueles e daquelas que carregam a imagem do Criador.

Mas o que significa manifestar nossa identidade como filhos e filhas de Deus? Como discípulos e discípulas nos caminhos da missão, qual é nossa responsabilidade para com toda a criação? E como a tradição wesleyana, com sua ênfase na santidade social e na graça, nos orienta nessa vocação?

Cuidar da criação não é apenas preservar o que existe, mas participar ativamente da obra criativa e redentora de Deus. É exercer a criatividade como dom do Espírito Santo, inovando caminhos de missão que respondam aos gemidos da criação em nosso contexto.

João Wesley e a criação: fundamentos teológicos

João Wesley não desenvolveu uma teologia sistemática da criação no sentido que a teologia contemporânea demanda, mas sua visão integrada da salvação, santificação e responsabilidade social oferece fundamentos sólidos para uma missão criativa e cuidadora. A doutrina wesleyana da graça afirma que Deus age em toda a criação antes mesmo que a reconheçamos. E quando nos conscientizamos dela, passamos da dimensão preveniente para a justificadora e daí para a santificadora. Temos uma mente transformada e transformadora, que desperta a criatividade como dom de Deus em nós. Somos chamados e chamadas não apenas a guardar a criação de Deus, mas, como Ele, a desenvolver a capacidade de criar!

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12.2). A conversão, ou renovação da mente, não é mera conversão individual, mas uma transformação que abrange todas as dimensões da existência. A neurociência contemporânea confirma o que Wesley intuiu a partir da ênfase bíblica: nossa mente pode ser renovada, pode ser mudada, pode pensar diferente. O cérebro é flexível, capaz de criar novas conexões, de aprender em qualquer idade, de romper padrões estabelecidos. Isso não é apenas descoberta científica – é manifestação da graça de Deus operando na própria estrutura da criação.

Quando Paulo fala em “renovação da mente”, está tratando de transformação profunda da nossa vida, transbordando nela toda. É novo modo de pensar que nos capacita a “experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” – e essa vontade abrange toda a criação, não apenas as almas individualmente.

Santidade social e criatividade missionária

Wesley revolucionou o metodismo ao insistir que santidade pessoal é inseparável de santidade social. Não basta ter coração aquecido em Aldersgate se esse aquecimento não transborda em amor prático, justiça concreta, transformação social.

Mas santidade social no século XXI exige criatividade. Os problemas que enfrentamos – desigualdade estrutural, violência sistêmica, degradação ambiental, fragmentação comunitária – não podem ser resolvidos com respostas prontas do passado. Exigem o que vou chamar aqui de “inquietação criativa”. Ou como diz Bill Hybells, aquele “descontentamento santo” que não aceita passivamente o sofrimento ou as condições degradantes do momento presente, mas busca inovar soluções.

Wesley demonstrou essa criatividade em seu próprio ministério. Quando as igrejas fecharam suas portas, ele pregou ao ar livre. Quando a estrutura eclesiástica deixou de alcançar os pobres, criou sociedades metodistas. Quando a educação era privilégio de poucos, fundou escolas. Quando a exploração trabalhista destruía vidas, denunciou e organizou alternativas para geração e distribuição de renda, cuidado com as mulheres e melhores condições de trabalho no contexto da revolução industrial. É fato histórico, reconhecido por muitos, que foi a revolução social metodista que salvou a revolução industrial inglesa do seu colapso humano! Essa é criatividade missionária: capacidade de perceber onde a criação geme e criar respostas contextualizadas, inovadoras, efetivas.

Imago Dei: criados para criar

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1.26). A tradição teológica wesleyana sempre afirmou que a Imago Dei se reflete em racionalidade, moralidade, capacidade relacional e até mesmo a dimensão política do ser humano. Mas precisamos recuperar outra dimensão fundamental: criatividade.

Se fomos criados à imagem do Criador, então criatividade não é talento opcional de alguns privilegiados – é vocação constitutiva de todos os seres humanos. É marca da presença divina em nós.

O verbo hebraico barah, usado exclusivamente para a atividade criativa de Deus, aparece três vezes em Gênesis 1.27: “Criou (barah) Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou (barah); homem e mulher os criou (barah).” Essa tripla repetição enfatiza que nossa própria existência é ato criativo divino, e que fomos criados para participar dessa criatividade.

Embora apenas Deus possa criar ex nihilo – do nada – fomos chamados para co-criar com Ele. Adão recebeu a tarefa de nomear os animais (Gênesis 2.19-20), participando assim do processo criativo. Deus não precisava de Adão para completar a criação, mas graciosamente o convidou a participar. Deus quer criar conosco – essa é a essência da vocação humana.

A criação geme: diagnóstico da realidade

“A criação geme e suporta angústias até agora” (Romanos 8.22). Paulo usa linguagem obstétrica – gemidos de parto – sugerindo que a dor da criação não é de uma doença terminal, mas para gerar. É dor que antecede nascimento.

Mas enquanto esperamos esse nascimento, não podemos ser passivos. O gemido da criação se manifesta concretamente em nosso contexto: famílias fragmentadas, igrejas divididas, comunidades violentas, sociedades injustas, natureza devastada.

Parte do gemido vem de paradigmas que aprisionam sem que percebamos. Há uma parábola ilustrativa: certa vez, cientistas colocaram macacos em uma jaula, na qual havia uma escada em cujo topo se dependuravam bananas maduras. Mas quando um apenas subia na escada, os macacos que estavam embaixo tomavam um banho de água fria. Logo, eles aprenderam que subir na escada resultava em castigo. Aos poucos, pararam de subir. Então, os macacos foram sendo substituídos um a um. O novato sempre tentava subir a escada e os demais o agarravam e batiam nele para evitar o banho gelado. Depois de um tempo, todos os macacos foram substituídos. E os novos continuavam impedindo uns aos outros de subir, mas agora sem saber por quê. “Sempre foi assim” tornou-se razão suficiente.

Quantos paradigmas aprisionam nossa missão? Dizem: “A estrutura atrapalha a inovação” – mas ao investigar, vemos que não existe documento, diretriz ou pessoa impedindo nada. Não é raro que algo foi instalado mentalmente certa vez e nunca mais questionado.

“Aqui a gente é pago pra fazer, não pra pensar.” Essa frase, dita em ambiente de trabalho secular, também pode descrever aspectos da vida eclesial. Quantas vezes inibimos criatividade missionária com estruturas que existem apenas em nossa imaginação coletiva?

Outro gemido vem da desconsideração de contextos. “A genialidade de uma ideia sempre passa pelo contexto que ela foi inserida.”, já foi dito. Soluções importadas de outras realidades frequentemente fracassam por ignorar especificidades locais. Cuidar da criação exige criatividade contextual: perguntar, não presumir; escutar, não impor; adaptar, não replicar.

O metodismo inglês precisou ser adaptado para o contexto norte-americano. O metodismo brasileiro não pode ser cópia do inglês ou americano. E mesmo depois de tantos anos, ainda há muitos aspectos em que precisamos descobrir nossa “unção brasileira”, jeitos próprios de adorar, organizar, testemunhar. Mas pode ser que estejamos perdendo muito da essência criativa que Deus nos deu em busca da cópia ideal.

Múltiplas inteligências, múltiplos dons

A tradição wesleyana sempre afirmou diversidade de dons. Paulo lista dons em Romanos 12, 1 Coríntios 12, Efésios 4. Wesley organizou o metodismo reconhecendo que diferentes pessoas têm diferentes capacidades: pregadores leigos, líderes de classe, visitadores, educadores, administradores.

A teoria das múltiplas inteligências contemporânea ecoa essa sabedoria: inteligência lógico-matemática, espacial, linguística, corporal-cinestésica, musical, interpessoal, intrapessoal, naturalista. Cada uma reflete aspecto da criatividade divina.

A missão de Deus exige todas essas inteligências trabalhando juntas. Precisamos de quem pensa sistemicamente (lógico-matemática), de quem percebe dinâmicas espaciais e territoriais (espacial), de quem articula mensagem com palavras (linguística), de quem expressa adoração com corpo (corporal), de quem cria música que toca almas (musical), de quem navega relacionamentos complexos (interpessoal), de quem cultiva profundidade espiritual (intrapessoal), de quem entende e protege a criação (naturalista).

Durante muito tempo, privilegiamos apenas certas inteligências – especialmente lógica e linguística – na formação teológica e liderança eclesial. Mas cuidar de toda a criação exige que valorizemos e desenvolvamos todas as formas de inteligências e nos abramos à multiplicidade dos dons derramados pelo Espírito Santo de Deus.

Criatividade colaborativa: A teia da missão

“As ideias, os insights não surgem do nada, eles são parte de um ambiente, e de uma sucessão de escolhas que formam uma rede” (Criative-se, Marcos Madaleno)

O metodismo nasceu da criatividade colaborativa. Wesley não atuava sozinho – tinha seu irmão Charles compondo hinos, sua mãe Susanna educando teologicamente desde a casa, pregadores leigos multiplicando alcance, sociedades metodistas criando comunidades de apoio mútuo. Muitas pessoas em diferentes status sociais, interagindo pelo mover do Espírito Santo de modo sobrenatural!

Mas a sociedade ocidental moderna exaltou o indivíduo e enfraqueceu a comunidade. A criatividade ficou associada a gênios solitários. Ideias passaram a ser propriedade intelectual, patenteadas, monopolizadas. Mas a criatividade, como dom de Deus, visa preservar a comunidade, proteger seus integrantes, garantir sustento comum. Não importa quem teve a ideia – importa se resolver o problema coletivo.

A missão metodista precisa recuperar essa dimensão comunitária da criatividade. Quando conectamos “pessoas, ideias, influências, conhecimentos e ambientes”, quando criamos redes colaborativas, quando valorizamos a variedade de perspectivas, nossa capacidade criativa se multiplica exponencialmente. Lembro-me de um exercício proposto pelo famoso pregador americano T. D. Jakes: encontre alguém que pense diferente de você, escute-o por uma hora e aprenda algo com essa pessoa. Seu mundo pode ser transformado! Ele mesmo compartilhou sua história ao fazer isso com uma mulher que havia perdido um bebê e quase morrera no hospital. Seu ministério foi renovado.

Resiliência criativa: missão em contextos adversos

Criar em um momento bonito é uma beleza. Mas quando vem os desafios – qual é a solução? Como vou viver nisso aqui? É colocar em ação tanto a fé como a criatividade para superar. É verdade que o metodismo brasileiro enfrenta desafios imensos: em diversos lugares existe um declínio numérico. A crise financeira é real e não é uma realidade apenas nossa. Há divisões internas graves, rompimentos complexos. Devemos reconhecer que socialmente no Brasil e no mundo já fomos muito mais relevantes. Este ato de confissão de pecados e arrependimento é fundamental e inescapável. Mas, diante disso, podemos reagir com lamento paralisante ou com inquietação criativa.

O metodismo nascente enfrentou desafios similares, afinal de contas. Wesley viveu a oposição da igreja estabelecida, perseguição popular, críticas teológicas, desafios organizacionais. E respondeu com resiliência criativa: quando portas fecharam, abriu janelas; quando estruturas conhecidas não funcionaram, criou novas ou pegou emprestadas ideias ao redor do mundo todo; quando recursos faltaram, mobilizou os pobres a cuidarem uns dos outros (lembra da oferta nas classes?). Wesley pregou ao ar livre, mobilizou metodistas a combater a escravidão, sustentou a missão em contextos hostis, estimulou pessoas nas mais diversas esferas sociais a fazer a diferença desde onde estavam.

Mas essa criatividade não pode ser apenas reativa. Não basta responder a crises – precisamos criar proativamente novos caminhos de missão. Afinal, como se diz, “toda criatividade surge de um problema” – mas criatividade madura também antecipa problemas e cria soluções preventivas.

O Espírito Santo: agente da criatividade missionária

Além das questões naturais da nossa mente, que vimos no começo deste ensaio, eu creio que o Espírito Santo também pode ajudar a criar conexões neurais novas. A experiência da conversão não é apenas mudança do nosso destino eterno, mas um novo modo de pensar que traz à tona coisas que nunca imaginaríamos. O Espírito Santo não é apenas consolador no sentido emocional – é agente de transformação, capacitador para missão, criador de novidades!

Quando afirmo que Espírito pode criar “novas conexões neurais”, entendo que a obra divina não é apenas espiritual (nesse sentido de algo não tangível, etéreo) mas transforma concretamente nossa forma de processar realidades, de perceber possibilidades, de gerar soluções. Veja a promessa de Jesus: “Quando vocês estiverem diante do rei e não souberem o que falar, o Espírito Santo vai fazer vocês lembrarem.” Ele articula as saídas para os problemas que estamos passando. Isso é promessa de criatividade missionária: o Espírito capacita os discípulos e discípulas a responder criativamente a desafios que jamais imaginamos enfrentar.

Mas o Espírito não age magicamente, ignorando processos humanos. Ao contrário, ao nos fazer colaboradores e colaboradoras com Deus, ele age através de mentes renovadas, comunidades colaborativas, práticas intencionais. Por isso importância de “treinar o cérebro” para que possa pensar espiritualmente, isto é, ter a mente de Cristo – exercitar curiosidade, questionar paradigmas, experimentar alternativas, aprender continuamente.

Para usar a expressão popular, pensar fora da caixa. Mas podemos ir além. Às vezes a gente tem que aprender a aumentar nossa caixa, ao invés de só querer pensar fora dela. Usar melhor o recurso que temos já é inovação dentro da nossa realidade.

Porque a romantização do “pensar fora da caixa” pode ser paralisante ou jogar fora recursos preciosos e indispensáveis em busca de um novo constante, sem enraizamento. E planta sem raiz seca na terra seca. Esperamos recursos que não temos, condições ideais que não existem, dons imaginários que consideramos indispensáveis. E enquanto esperamos, não criamos nada e ainda perdemos o que já nos foi dado.

A criatividade missionária é questão de “aumentar a caixa” – trabalhar criativamente com limitações reais. Wesley não esperou que Igreja Anglicana mudasse – trabalhou a partir do que encontrou. Não esperou recursos abundantes – mobilizou as pessoas a se ajudarem mutuamente. A vida da igreja acontece enquanto esperamos o dia D das coisas. A criação geme agora, não em futuro hipotético ideal. E pode, de muitas formas, encontrar libertações agora mesmo, que o Espírito já tem dado, mas que a gente não tem acessado.

A pergunta crucial não é: “O que faríamos se tivéssemos recursos infinitos?” mas “nessa situação difícil, com o que temos, o que dá para fazer?” Porque fazer algo é melhor que não fazer nada.

Contextualização: Cada cultura tem “sua unção”

Como parte de sua graça e da multiplicidade de dons, podemos crer que Deus deu um jeito para o brasileiro adorar que não é o jeito americano. Quando a unção do Canadá é colocada em ação no Canadá, o Espírito desce. Orantes fervorosos atuam de modo distintos na Coreia e na África. Mas o Espírito é o mesmo. Então o brasileiro tem que perguntar pela unção que é sua, algo que Deus plantou em nós. O que Deus quer de nós para este povo no meio do qual estamos?

Essa afirmação teológica profunda desafia a mentalidade colonizada que ainda permeia o metodismo brasileiro. Wesley foi um mestre em contextualização. Qualquer leitura de sua biografia vai mostrar sua relação com os morávios, com os espanhóis, com os judeus e até mesmo com os indígenas americanos! Mas com o tempo, esquecemos essa vocação criativa e nos tornamos meros replicadores. Recuperar a criatividade contextual não é rejeitar a viva tradição wesleyana – é ser fiel ao próprio espírito de Wesley, que sempre priorizou efetividade missionária. A nossa tradição nos salvaria de nossos tradicionalismos arraigados! Que virada!

Cuidar da criação exige reconhecer que não existe “a igreja” abstrata, mas igrejas concretas em contextos específicos: geográficos, culturais, geracionais, familiares, sociais, raciais, religiosos. Igreja em comunidade rural tem desafios diferentes de igreja urbana. Igreja em periferia enfrenta realidades distintas de igreja em bairro classe média. Igreja com maioria de idosos precisa de abordagens diferentes de igreja jovem. Igreja em contexto de pluralidade religiosa demanda estratégias distintas de contexto mais homogêneo.

Missão criativa exige mapear esses contextos cuidadosamente. Não basta ter boa intenção – precisamos perguntar: “Percebo o ambiente? Leio o cenário? Entendo o público? Pesquiso sobre experiência de cada pessoa?” Essa é pesquisa pastoral básica, mas frequentemente negligenciada. Presumimos conhecer nossa comunidade sem realmente escutar. Importamos programas que funcionaram alhures sem verificar se fazem sentido aqui.

Voltando ao primeiro amor, resgatando a criatividade

O Metodismo não foi criado para ser cópia de outras tradições. Ele foi um movimento de renovação, inovação, criatividade missionária em seu tempo. Mas facilmente nos tornamos cópia – de megaigrejas neopentecostais, de movimentos emergentes norte-americanos, de modelos empresariais seculares. Importamos sem adaptar, replicamos sem criar. Isso tem tirado o melhor de nós e tem nos custado muito. Depois de nos esgotarmos buscando essas coisas, achamos ser necessário receber uma nova revelação de Deus, mas pode ser que apenas saímos para fazer a mesmice em outro lugar.

Então, recuperar a identidade criativa metodista não é nostalgicamente voltar ao século XVIII. É perguntar: qual é nossa vocação única neste contexto? O que Deus plantou especificamente na nossa tradição wesleyana que pode florescer aqui e agora?

Vejo como possibilidade profética um olhar renovado, dado por Deus e buscado por nós, na santidade social que integra evangelização e justiça, pois ainda somos um país de imensa desigualdade, violência e morte. A organização em pequenos grupos que geram comunidade profunda continua sendo fundamental, cria laços e redes de apoio, e eu vejo isso especialmente na Região em que sou bispa, com muitos deslocamentos de famílias por conta do trabalho. Acredito que outra ação criativa é a valorização da educação teológica acessível, que reduza os dualismos em que a vida cristã tem se aprisionado. E mais do que tudo, a capacidade dada por Deus de navegar tensões teológicas sem cismas destrutivos, como Wesley conseguiu fazer com seus amigos morávios e reformados, entre outros…

Descobrir isso exige criatividade – não apenas para preservar o que do passado deve ser guardado, mas para imaginar futuros possíveis dentro do chamado que recebemos, pois Deus, com certeza, ama a nossa Igreja e deu a ela algo muito especial de sua parte.

Conclusão: A missão de revelar

“A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus.” A missão da igreja não é apenas preservar a criação, em todos os seus aspectos, desde a natureza até as pessoas, mas revelar possibilidades que Deus plantou nela.

Discípulos e discípulas nos caminhos da missão cuidam de toda a criação quando:

  • Exercem criatividade como dom do Espírito, reconhecendo que foram criados à imagem do Criador
  • Desenvolvem inquietação criativa, não aceitando passivamente os sofrimentos mas buscando inovar soluções
  • Praticam empatia que conecta dores, criando solidariedade que gera transformação
  • Trabalham colaborativamente, valorizando variedades de inteligências, dons espirituais, talentos, perspectivas e histórias com Deus
  • Cultivam resiliência criativa, respondendo a adversidades com fé ousada
  • Contextualizam, descobrindo a “unção específica” de cada lugar no conjunto da fé comum que a todos une em Cristo
  • Simplificam corajosamente, removendo ruídos para liberar criatividade essencial
  • Abraçam sua identidade única, não sendo cópias, mas expressões autênticas do chamado de Deus para nós, como metodistas.

A criação geme. Mas seus gemidos são de parto, não de morte. Algo novo está nascendo. E Deus nos convida – como convocou Adão a nomear animais – a participar criativamente desse nascimento. Não podemos ser passivos. Não podemos esperar condições ideais. Não podemos replicar soluções prontas. Precisamos criar – com amor, com ousadia, com fé, com unção profética da parte de Deus, com compromisso, com lealdade, com desprendimento – novos caminhos de missão que respondam aos gemidos da criação em nosso contexto específico.

Porque quando discípulos e discípulas manifestam plenamente sua identidade criativa de filhos e filhas de Deus, manifestados pelo Espírito, a criação celebra. Eu creio que chegará o dia em que revelaremos algo da glória do Deus que faz todas as coisas novas, aqui mesmo, desde dentro dessa vocação a que fomos chamados, o povo chamado metodista.

 

Bispa Hideide Brito Torres

8ª Região Eclesiástica

Brasília, 30 de abril de 2026

 

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